O
dinheiro é o meio através do qual se avalia o sucesso terreno.
O dinheiro torna possível o gozo das melhores coisas
que a terra pode oferecer.
O dinheiro é abundante para aqueles que compreendem as
leis simples que governam sua aquisição.
O
dinheiro é hoje governado pelas mesmas leis que o controlavam quando, há seis
mil anos, homens prósperos enchiam as ruas da Babilônia.
O
homem que desejava ouro
BANSIR, o fabricante de carruagens da Babilônia,
achava-se completamente desanimado. Sentado no muro baixo que cercava sua
propriedade, contemplava com tristeza a habitação humilde e a oficina aberta
onde se podia ver uma carruagem em fase de acabamento.
De tempos em tempos, a esposa surgia na porta da casa.
O olhar furtivo que lhe endereçava nesses momentos lembrava-o de que a despensa
estava quase vazia e que ele devia estar trabalhando para terminar o serviço
encomendado, martelando aqui, cortando ali, lixando e pintando, esticando o
couro para forrar os aros das rodas, em suma, preparando o veículo para a
entrega, a fim de que pudesse receber o pagamento de seu rico cliente.
Não obstante, seu corpo robusto e musculoso permanecia
apaticamente sobre o muro. Seu raciocínio lento ocupava-se com um problema cuja
resposta não conseguia encontrar. O sol abrasador, tão comum no vale do
Eufrates, castigava-o sem contemplação. Gotas de suor formavam-se acima de suas
sobrancelhas e pingavam despercebidas para se perderem na mata cerrada de seu
peito.
Além de sua casa, erguiam-se as altas muralhas em
terrapleno que cercavam o palácio do rei. Próximo, espetando o céu azul, ficava
a colorida torre do Templo de Bel. À sombra de tanta
grandeza
achava-se sua moradia e tantas outras muito menos limpas e bem-cuidadas. A
Babilônia era assim — uma mistura de grandeza e miséria, de riqueza
ostentatória e mendicidade, tudo convivendo sem plano ou sistema dentro das
muralhas protetoras da cidade.
Atrás dele, se apenas tivesse o cuidado de voltar-se e
olhar, as barulhentas carruagens do rico passavam aos solavancos e obrigavam a
sair do caminho tanto o comerciante de sandálias quanto os mendigos de pés
descalços. Até o rico era forçado a buscar a sarjeta para dar passagem às
longas filas de escravos carregadores de água, todos a serviço do rei, cada
qual transportando pesados sacos de pele de cabra cheios d 'água para regar os
jardins suspensos.
Bansir achava-se muito absorvido por seu próprio
problema para ouvir ou prestar atenção ao confuso burburinho da atarefada
cidade. Foi uma repentina sucessão de acordes de uma lira familiar que o
arrancou ao devaneio. Ele virou a cabeça e deu de cara com o rosto delicado e
sorridente de seu melhor amigo
— Kobbi, o músico.
— Possam os deuses abençoá-lo com grande generosidade,
meu bom amigo — começou Kobbi, numa saudação rebuscada.
—
Entretanto, parece que já o fizeram, pois não o vejo entregue ao trabalho.
Regozijo-me com você por sua boa sorte. Mais ainda, gostaria de compartilhar
isso com você. Por favor, dessa sua bolsa que deve estar abarrotada, pois do
contrário você se encontraria na oficina, me empreste dois humildes siclos, que
devolverei logo após o banquete dos nobres esta noite. Você não chegará a sentir
a falta deles.
— Se eu tivesse dois siclos — respondeu Bansir,
melancolicamente —, não poderia emprestá-los a ninguém, nem mesmo a você, que é
o meu melhor amigo; pois eles constituiriam minha fortuna, toda a minha
fortuna. Ninguém empresta o único dinheiro que possui, nem mesmo para o melhor
amigo.
— O quê!? — exclamou Kobbi,
realmente surpreso. — Não tem um único siclo na algibeira, e fica postado como
uma estátua sobre este muro! Por que não terminou a carruagem? Como pode
sustentar o seu raro apetite? Isso não é normal em você, meu amigo. Onde está
sua inesgotável energia? Alguma coisa aconteceu com você? Trouxeram-lhe os
deuses algum infortúnio?
— Deve ser mesmo um tormento dos deuses — disse
Bansir, concordando. — Tudo começou com um sonho, um sonho sem sentido onde me
via como um homem de posses. De meu cinturão pendia um belo saco, pesado de
tanta moeda. Dali retirava punhados de siclos, que eu lançava, com uma
liberalidade descuidosa, aos mendigos; havia moedas de prata com que eu
comprava presentes para a esposa e o que bem desejasse para mim mesmo; havia
moedas de ouro que me tranqüilizavam quanto ao futuro e me deixavam sem medo de
gastar à vontade as moedas de prata. Uma sensação magnífica de contentamento
enchia o meu peito! Você não teria reconhecido o seu velho e diligente amigo.
Como não teria reconhecido minha mulher, com suas faces saudavelmente rosadas e
sem rugas. Ela era novamente a mocinha sorridente de nossos primeiros anos de
casados.
— Um sonho agradável, sem dúvida — comentou Kobbi —,
mas por que deveriam essas sensações tão prazerosas deixá-lo apático e
deprimido como agora?
—
Por que, realmente! Porque, quando acordei e me lembrei de que não tinha um
centavo sequer, um sentimento de revolta tomou conta de mim. Vamos conversar um
pouco sobre isso, pois, como dizem os marinheiros, estamos no mesmo barco, nós
dois. Quando meninos, fomos juntos aos sacerdotes do Templo buscar sabedoria.
Na juventude, divertimo-nos um bocado. Gomo homens feitos, mantivemo-nos amigos
íntimos. Temos sido de algum modo súditos conformados. Temos nos contentado em
trabalhar longas horas e gastar nossos ganhos livremente. Conseguimos muito
dinheiro nos últimos anos, mas só em sonhos poderíamos conhecer as alegrias
decorrentes da riqueza. Ora! Não passamos de duas ovelhinhas pacatas! Vivemos
na mais rica cidade do mundo. Os viajantes costumam dizer que nenhuma outra se
iguala a ela em prosperidade. Tanta ostentação de riqueza nas nossas barbas,
mas nós mesmos ficamos a ver navios. Depois de praticamente meia existência de
trabalho árduo, meu melhor amigo se acha sem um níquel e me procura para dizer:
"Não poderia me emprestar a bagatela de dois siclos até o término do
banquete dos nobres esta noite?" E o que respondo? Digo, por acaso:
"Aqui está minha bolsa, dividirei com você todos os siclos que aí se
encontram?" Não, simplesmente admito que minha bolsa está tão vazia quanto
a sua. Mas o que há? Por que não podemos obter prata e ouro — mais do que
apenas o necessário para o sustento do lar?
"Pense também em nossos filhos", continuou
Bansir, "não estão seguindo o caminho dos pais? Tem cabimento que eles e
suas famílias, e os filhos e as famílias de seus filhos, passem a vida inteira
no meio de tantos guardadores de ouro e, apesar disso, exatamente como nós,
contentem-se com mingau e leite de cabra azedos?"
— Em todos esses anos de amizade nunca o vi falando
desse modo, Bansir. — Kobbi estava perplexo.
— Porque, na verdade, nunca tinha pensado assim.
Desde as primeiras luzes da manhã e até que o escuro da noite me fizesse largar
as ferramentas, trabalhei duro para montar as mais finas carruagens que
qualquer outro homem pudesse fazer, esperando credulamente que um dia os deuses
reconheceriam o valor de minhas obras e me recompensariam por isso com a maiorprosperidade. Pois nunca o fizeram. Finalmente,
convenci-me de que nunca o farão. É esse o motivo da tristeza que rói o meu
peito. Quero ser um homem de posses. Quero ter minha própria terra e animais
para criar, quero ter roupas finas e dinheiro, muito dinheiro. Estou disposto a
trabalhar com toda a força de meus músculos, com toda a perícia de minhas mãos,
com todo o tirocínio de minha mente, mas quero que os frutos de meu trabalho
sejam fartos. Qual é o problema com a gente? E o que volto a lhe perguntar! Por
que não podemos ter o nosso justo quinhão das coisas boas, tão abundantes
naqueles que têm ouro suficiente para comprá-las?
—
Quem dera tivesse uma resposta! — replicou Kobbi. — Sinto-me tão pouco
satisfeito quanto você. Meus ganhos com a lira se vão rapidamente. Muitas vezes
tenho que inventar para que a família não passe fome. Além disso, venho há
muito alimentando o profundo desejo de adquirir uma lira grande o bastante para
que possa verdadeiramente tocar os acordes musicais que se multiplicam em minha
mente. Com um instrumento assim, eu poderia compor músicas melhores do que
aquelas que o rei ouviu até o momento.
— Com uma lira que você, sem qualquer favor, deveria
ter. Nenhum homem em toda a Babilônia poderia fazê-la vibrar mais docemente; a
tal ponto que não apenas o rei, mas ospróprios deuses ficariam deliciados.
Como, porém, conseguir tal coisa, se nós dois somos tão pobres quanto os
escravos do rei? Ouça o sino! Aí vêm eles.
Ele apontou na direção da longa coluna de semidespidos
e suarentos carregadores de água que subiam penosamente a rua, vindo do rio.
Arrastavam-se em alas de cinco, cada qual vergado sob um pesado odre de pele de
cabra.
— Um belo tipo de homem, aquele que os está
conduzindo. — Kobbi indicou o tocador do sino, que ia na frente, sem carregar
nada. — Um homem importante em seu próprio país, como se pode ver.
— Há muitos bons tipos ali—acrescentou Bansir,
concordando com o amigo —, homens tão bons quanto nós. Homens altos e louros do
norte, os risonhos negros do sul, os morenos dos países mais próximos. Todos
marchando juntos do rio até os jardins, um após outro, dia após dia, ano após
ano. Nenhuma expectativa quanto a um futuro diferente ou melhor. Camas de palha
para dormir e papas terríveis de cereais para comer. Coitados desses pobres
brutos, Kobbi!
— Coitados, realmente. Mas você me faz ver que não
somos muito melhores do que isso, embora nos consideremos homens livres.
— É verdade, Kobbi, por mais desagradável que seja a
idéia. Não queremos continuar levando ano após ano uma vida de escravos.
Trabalho, trabalho, trabalho! Sem ir a lugar algum.
— Não podemos descobrir como outros conseguem ouro
e fazermos como eles? — perguntou Kobbi.
— Talvez haja algum segredo que devamos buscar junto
àqueles que o conhecem — replicou Bansir, pensativo.
— Ainda hoje — lembrou Kobbi — passei por nosso velho
amigo, Arkad, refestelado em sua carruagem dourada. Devo dizer que ele não me
olhou com o desprezo que muitos de sua posição teriam achado perfeitamente
cabível. Ao contrário, acenando com a mão na frente de todos os circunstantes,
saudou e concedeu seu sorriso de amizade a este Kobbi, o músico.
—
Ele é considerado o homem mais rico de toda a Babilônia
— refletiu Bansir.
—Tão rico que o próprio rei, segundo se diz, busca sua
valiosa ajuda para os negócios do tesouro — replicou Kobbi.
— Tão rico — acrescentou Bansir — que, se o
encontrasse casualmente numa noite escura, seria capaz de enfiar minha mão em
sua gorda algibeira.
—Tolice — reprovou Kobbi —, a riqueza de um homem não
se acha na bolsa que ele carrega. Uma bolsa gorda fica logo vazia se não houver
um constante fluxo de ouro. Arkad tem rendimentos que conservam suas reservas
sempre altas, por maior que seja a liberalidade com que gasta dinheiro.
— Rendimentos, essa é a questão — exclamou
Bansir. — Quero ter uma renda fluindo continuamente para minha bolsa, esteja eu
sentado sobre o muro ou viajando em terras distantes. Arkad deve saber como um homem pode criar uma renda
para si mesmo. Supõe que se trate de alguma coisa que ele poderia deixar claro
para uma mente tão lenta como a minha?
— Parece-me que ele transmitiu seus conhecimentos ao
filho, Nomasir—respondeu Kobbi. — Este não foi para Nínive e, como se comenta
na estalagem, não se tornou, sem a ajuda do pai, um dos homens mais ricos dessa
cidade?
Continua na próxima postagem..
